BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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Dennis "Piggy" D'Amour
1959-2005

Faleceu há uma semana o guitarrista da inovadora banda canadense Voivod. Dennis D'Amour, ou Piggy, como era mais conhecido, forjou uma sonoridade única ao longo de seus 20 anos de carreira, indo dos riffs pesados e dissonantes até solos belíssimos e texturas estranhas. Sua criatividade fez do Voivod banda ímpar e que, se não emplacou sucessos comerciais, ganhou, por outro lado, o status de "cult" e "influente". A admiração de membros de grupos como Soundgarden, Dead Kennedys, Pantera, Pearl Jam, Foo Fighters, Sonic Youth e muitos outros, são uma pequena amostra do trabalho notável desse músico e seus comparsas de Quebec.

Nenhum guitarrista fez coisa parecida. Há outros mais rápidos ou técnicos, mas Piggy criou um estilo que reside num universo próprio. O Voivod, fundado por ele, Away (bateria), Snake (voz) e Blacky (baixo) na metade dos 80's, sofreu por parecer sempre à frente do tempo.

Em seu primeiro disco, "War and Pain", o Voivod apresentou uma mistura estranha de punk e thrash, tocando num volume à la Motorhead. Esse álbum, me disse certa vez um amigo, era o "Nevermind the Bollocks" do Voivod. A inconseqüência juvenil estava toda lá e reapareceu, inclusive, no trabalho seguinte, o caótico e cyber-punk "Roooaaarrrr". Daí por diante, a banda, movida por uma vontade incontrolável de inovar, surgia a cada novo álbum com letras, idéias e conceitos musicais que deixavam seus pares parecendo artistas da Idade Média.

Em 87, foram para a Alemanha e gravaram "Killing Technology", um disco semi-conceitual e que já discutia o avanço louco da tecnologia e suas conseqüências. Um ano depois, reapareceram com a obra-prima "Dimension Hätross" que, se ainda cabia na definição convencional de (thrash) metal, então já podia ser considerado o melhor álbum do gênero. O Voivod sempre pirou em teorias científicas, discos voadores, conspirações e caos. Mas, de alguma forma, esses canadenses conseguiram mais do que apenas produzir música inspirada no futuro e na ficção científica: o Voivod era sci-fi! E grande parte dessa estranheza tão única sempre esteve ligada à guitarra de Piggy. O cara que criou dezenas de riffs complexos e totalmente fora dos padrões, também era responsável por inventar climas atmosféricos que davam ao Voivod toda essa aura "espacial" e "futurista".

Após "Nothingface", de 1989, disco que muitos têm como a obra mais impenetrável e original da banda, o Voivod teve sua chance de sair de um gueto onde era Deus. Assinaram contrato com a 'major' MCA -- gravadora que alguns críticos apelidaram de Musical Cemetery of America, graças à sua capacidade de enterrar carreiras -- e lançaram seu álbum mais pop e mais prog: "Angel Rat". É nesse disco que estão registradas algumas das gravações mais belas de Piggy. Músicas como "Freedoom", "None of the Above" e a faixa-título merecem lugar no CD player de qualquer aspirante a guitarrista, tal o grau de classe e inventividade. Mesmo assim, o Voivod quebrou a cara na MCA. Em tempos de grunge, ninguém queria saber das viagens de 4 canadenses que só falavam inglês nas letras de músicas. Para piorar, o baixista Blacky largou a banda após uma briga pela intromissão do produtor Terry Brown, que, segundo o músico, eliminou canais de distorção de seu instrumento e enfiou teclados contra a vontade da banda. Tudo pra deixá-los "mais pop". Para o bem ou para o mal, o disco foi um fiasco comercial, porém brilhante artisticamente. O Voivod, de farol baixo e desfalcado de Blacky, cumpriu contrato com a MCA e ainda lançou outro belo trabalho, "The Outer Limits".

Daí pra frente, a banda passou por períodos nebulosos, especialmente com a saída do carismático vocalista Snake, que foi morar no mato e se entupir de drogas com a namorada. Mas Piggy e seu "soul brother" Away nunca desistiram. Gravaram 2 discos pouco comentados com um outro músico, Eric Forest, e só viriam a renascer, de fato, em 2003, quando Snake ressuscitou de seu inferno particular e foram apadrinhados pelo ex-Metallica Jason Newsted. Com Jason no time, gravaram "Voivod", seu décimo álbum de estúdio e que recolocou a banda no mapa. Uma sonoridade meio garage somada a letras pessoais e um tanto politizadas, deram ao disco um clima meio pé no chão. Snake revelou que a banda sempre foi considerada à frente do tempo e que falar do avanço irresponsável da tecnologia ou de um futuro hi-tech, soaria ironicamente retrô em 2003.

Piggy, que durante as vacas magras fez bicos trabalhando na produção de espetáculos teatrais em Montreal, agora podia dedicar-se de corpo e alma ao que melhor sabia fazer: tocar sua guitarra. Mas um câncer no cólon tirou esse músico inovador de cena. Seu funeral teve presença de todos os integrantes atuais e passados do Voivod e, a pedido da família, vários fãs compareceram usando camisetas da banda. A guitarra de Piggy foi cremada a pedido de Snake, enquanto os fãs do grupo gritavam "Voivod". Seus familiares garantem que era o tipo de despedida que ele certamente teria aprovado.

Com um novo disco praticamente pronto e produzido por Glenn Robinson, o mago que assinou "Nothingface", Piggy não verá sua última performance materializada. À essas alturas, ele estará fazendo uma jam no espaço que sempre o inspirou.



 Escrito por Mr Eddy às 20h34
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O drama enfadonho da mulher portenha

A Menina Santa
(La Niña Santa/2005)
Direção: Lucrecia Martel
Com: María Alché (Amalia), Mercedes Morán (Helena), Carlos Belloso (Dr. Jano), Alejandro Urdapilleta (Freddy), Julieta Zylberberg (Josefina), etc.



Certa vez, numa conversa de bar, ouvi a teoria de que deve existir algum gene responsável pela chatice. Foi a única “explicação” encontrada para definir o mal que atinge aquelas pessoas cuja única função na Terra parece ser a de aborrecer o semelhante.

O segundo longa da argentina Lucrecia Martel – o primeiro foi “O Pântano” – chegou ao Brasil precedido de críticas extremamente favoráveis, a grife Almodóvar na produção e uma coleção de prêmios a tiracolo. Nada disso, porém, evitou que o filme reabrisse a velha discussão sobre a origem da chatice. Se aqui não há gene para levar a culpa, é possível então que caiba ao ritmo arrastado, ao número de personagens supérfluos e às boas situações desperdiçadas, uma boa parcela da explicação.

“A Menina Santa” narra as desventuras de duas "aborrecentes", um médico dado a encoxar mocinhas e uma divorciada em busca de marido. Quase tudo acontece dentro de um hotel que não parece hotel, durante convenção de otorrinolaringologistas. Helena (Mercedes Morán) é proprietária do lugar e mãe de Amalia (María Alche). Ela é divorciada e ressentida que seu ex-marido, Manuel, não tenha lhe contado pessoalmente que vai ser pai de gêmeos. Sua filha, Amalia, frequenta aulas de religião e, ao lado da melhor amiga, Josefina (Julieta Zylberberg), anda com os hormônios em ebulição. Dr. Jano (Carlos Belloso) é um dos membros mais comedidos de uma equipe médica que se refestela com drinks, cigarros e assédio à mulherada (melhor não ficar doente na Argentina). Ainda assim, Jano não perde a oportunidade de encoxar uma jovem que assiste a um artista tocando theremin para os transeuntes. Acontece que Helena fica caidinha por Jano. E acontece que a mocinha que ele molesta é Amalia. Triângulo “amoroso” impensável.

Se a premissa é interessante, a execução justifica a busca por uma explicação para a chatice reinante. “A Menina Santa” tem cenas aparentemente sem função e personagens supérfluos que apenas distraem a atenção do espectador (Mirta, Freddy, etc). Em momento algum fica evidente tensão sexual entre Helena e Jano. Ainda que a mulher desajeitadamente tente, o médico, que é casado, parece apenas insinuar interesse. Talvez ele se excite apenas com pequenas aventuras proibidas. No núcleo "aborrecente", Amalia e Josefina trocam o que deveriam ser confidências juvenis, mas tudo é confuso e sem foco. Em teoria, as duas procuram explicações para a tal "missão" que a (bela) professora de religião insiste em mencionar. O que poderia funcionar como crítica ao adestramento jovem via catolicismo torna-se uma enfadonha seqüência de cenas mal aproveitadas, culminando com um possivelmente único bom momento no qual Josefina, para forjar um álibi, põe em xeque a carreira e a família de Jano. Fim.

Isso mesmo: o filme termina antes de um anunciado clímax, após arrastados, e às vezes desconexos, 100 minutos. Seria o equivalente cinematográfico de uma broxada, caso houvesse prévia excitação. Assim como na insinuação atrapalhada de Helena, no desinteresse do Dr. Jano ou na chatice juvenil de Amalia (María Alché é atriz ruim de doer), o que existe é uma ausência completa de suor e tesão, algo que Martel parece almejar desde o início, mas que não sabe manipular.

O espectador insône pode, por outro lado, encontrar função alternativa para o filme, que revela-se bom material soporífero. Aqueles que, ao contrário, preferem não pregar os olhos, encontrarão melhor sorte nas obras de Buñuel, Almodóvar, Bigas Luna…


Dr. Jano não resiste à chatice de Amalia. Ninguém merece.

 Escrito por Mr Eddy às 12h49
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